educacao_0Em seu manual intitulado A filosofia da educação, Olivier Reboul questiona se educamos as crianças para a sociedade ou para ela própria. Este questionamento me parece oportuno, tendo em vista o atual rearranjo conceitual em que a educação está posta, onde, de um lado há os defensores de que devemos preparar as crianças para a cidadania e a vida social, e do outro adeptos a tese de que a educação capacita o indivíduo a crescer econômica e socialmente.
Os gregos, mais precisamente os espartanos, iniciaram o legado de que a educação deve formar para a sociedade, haja vista que as crianças eram afastadas dos país em tenra idade e iam às escolas iniciar a sua formação nas artes bélicas. Vale ressaltar que formar o guerreiro espartano era o ideal de virtude almejada por eles, já que compreendia que defender a pólis do inimigo exterior era a materialização da honradez.
De igual modo, os atenienses também tinha meta semelhante, sendo que, em vez de educar para a guerra, o ideal ateniense de educação era preparar as crianças para a vida política.
Na Renascença, este ideal antigo foi relegado a segundo plano. Montaigne, ao dizer que a educação é a condição para o homem conhecer a si mesmo, estabeleceu um caminho íntimo e um objetivo particular para a educação. Agora o que entrava em cena não era mais desenvolver a criança para a sociedade, mas formá-la para reconhecer-se como indivíduo.
É bom abrir um parênteses. No mesmo período de Montaigne, tanto os Reformistas (Lutero e Calvino), como os Contra-reformistas (Comenius e Jesuítas) formataram concepções educacionais que tinha como eixo norteador não a vida mundana, mas uma extramundana, ou seja, o paraíso celestial. Talvez tenha sido o único momento em que a história da filosofia da educação não se preocupou com o homem enquanto ser. Pelo contrário, o que tinham em mente era uma educação voltada para o sobrenatural, Deus. Nesse capítulo, tanto o homem enquanto ser sociável, quanto como ser particular foram relegados ao plano da imperfeição do pecado original.
Contudo, o debate entre educar para a sociedade versus educar para o indivíduo ganhou nova força com o Iluminismo francês. Enquanto Rousseau defendia uma educação voltada para o exercício pleno da cidadania, Condorcet e Diderot preocuparam-se em formar o indivíduo, partindo da premissa de que a ascensão social se dá via educação.
Em tempos de mundo globalizado tal debate mantem-se constante. Hannah Arendt argui favoravelmente de que a educação deve formar o indivíduo para a humanidade. Já Milton Friedman defende que o único beneficiário da educação é o próprio indivíduo, até porque em uma época de universalização da educação o que diferencia é a forma como cada um apropria-se do que é ensinado.
O fato concreto é que este debate milenar interfere no sentido que deve-se dar a educação, traçando os objetivos a serem alcançados. Além disso, políticas públicas são deliberadas e diversas crianças entram no universo educativo sem saber a direção que estão indo.
Particularmente, preservando e fortalecendo as aptidões naturais de cada indivíduo, penso que o ideal espartano-ateniense de formar para a sociedade ainda seja o melhor norteador que possamos atribuir à educação, mas também não podemos deixar de considerar que a história da humanidade e da sociedade é composta e modificada através da ação dos indivíduos.
Por isso, dar um sentido teleológico à educação torna-se imperioso para saber onde queremos chegar, se é que queremos chegar a algum lugar.

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