0 a bandeira desao_paulo_03 Quando criança, no sertão baiano, cresci ouvindo a expressão de que o estado de São Paulo era a locomotiva do país, terra próspera, rica e repleta de oportunidades para os retirantes. Era comum nordestinos fugirem da seca e das adversidades impostas pela vida e tentar a vida por estas bandas.
Por outro lado, desde que me entendo como gente, sempre há um paulista que postula o mais elevado cargo político brasileiro na situação de protagonista. Mário Covas (PSDB) e Ulisses Guimarães (PMDB) em 1989, FHC (PSDB) em 1994 e 1998, José Serra (PSDB) em 2002 e 2010, Geraldo Alckmin (PSDB) em 2006 e, embora seja nordestino, o retirante Luís Inácio Lula da Silva (PT) em 1989, 1994, 1998, 2002 e 2006.
Faço este recorte motivado pela reveladora entrevista de José Serra (PSDB), cedida ao jornalista Fernando Rodrigues (Folha de São Paulo/UOL), publica hoje, na versão online da FSP.

Confira a entrevista completa: http://www1.folha.uol.com.br/poder/poderepolitica/2013/11/1365972-leia-a-transcricao-da-entrevista-de-jose-serra-a-folha-e-ao-uol.shtml

Em um determinado ponto da entrevista, o jornalista indaga “Pela primeira vez, em 2014, há possibilidade de não haver nenhum representante de São Paulo com chance de ser presidente da República.”
E questiona: “Isso é um motivo de desalento para São Paulo?”
Por ser um político experiente, Serra foge pela tangente, fala algumas generalizações, mas deixa no ar que, desde 1950, isso não ocorria na disputa presidencial.
“E esta parte da entrevista termina assim: Então não deve haver um impacto grande para a política paulista o fato de não haver um paulista?”, pergunta Fernando Rodrigues.
“Eu tenho impressão, não necessariamente. Agora, não é fácil prever, muito difícil.”, finaliza Serra.

Morando, desde o ano passado, aqui em Campinas, percebi como é forte o orgulho paulista, alicerçada na valorização do trabalho, na determinação, no empenho, grosso modo, na racionalidade instrumental. Talvez a expressão que retrate isso é a ideia de que São Paulo é a locomotiva do país.
Aqui reside, também, o DNA do que ficou conhecida como a Revolução Constitucionalista, ocorrida em 1932. Até feriado específico tem, o 9 de julho. Certamente há herdeiros deste fato político que, em nome da legalidade institucional, queriam derrubar o governo de Vargas e retornar o sentido da política do café com leite, legado cruel da República Velha.
Estas forças do 9 de julho aglutinam-se em torno da avenida paulista, das grandes corporações midiáticas (Estadão e Folha de São Paulo) e financeiras, como também em certos setores da política, a exemplo do PSDB e do DEM.
Mas, na esquerda, este orgulho paulista também é patente. Já vi dirigentes petistas, comunistas e socialistas ecoarem estes valores, especialmente a ideia de que São Paulo é a locomotiva do país.
Não custa lembrar que a ideia de locomotiva pressupõe a existência de vagões, que são puxados e que cumprem uma função secundária, até porque é a locomotiva que conduz toda a máquina.
Falo isso porque a riqueza edificada em São Paulo pode ter contribuído, indiretamente, com a pobreza que assola a história do país e que, mesmo com os avanços sociais e econômicos que vivemos na última década, ainda vivemos em um país bastante desigual e concentrador de renda.
A entrevista de José Serra é reveladora. Ela aponta no sentido de que os herdeiros de 1932 já perceberam que correm riscos de não ter nenhum protagonista na disputa eleitoral que se aproxima. Mais que isto, estes herdeiros veem em José Serra a sua única possibilidade.

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