CRITICAR Estou lendo um livro, de autoria do filósofo italiano Paolo Rossi, chamado Esperanças. Em que pese as peculiaridades da obra, logo no início, um parágrafo despertou a minha atenção. Cito-o:

“Compreender é difícil. Requer tempo e aquisição de conhecimento e paciência. Propor remédios ou construir programas é ainda mais trabalhoso: demanda tempo, paciência e imaginação e criatividade e capacidade de fazer convergir num ponto a opinião de muitos. Manifestar indignação é, ao contrário, muito fácil.”

A partir dela, senti-me provocado a refletir sobre o termo crítica.
Falo isso porque qualquer indivíduo, minimamente instruído e que seja dotado de razão, tem o hábito de criticar tudo e a todos. Ainda bem, viva a democracia.
Contudo, qual o sentido que a filosofia deu ao termo crítica?
Salvo engano, aprendi, nestes 16 anos que convivo com a Filosofia da academia, algumas coisas e quero compartilhá-las.
Na antiguidade, Sócrates nos deixou como legado a ideia de que não devíamos aceitar as coisas como elas nos são apresentadas. Pelo contrário, devemos procurar conhecê-las e chegar às nossas próprias conclusões. É o que se costuma chamar de método socrático: parte-se da ironia, da não aceitação das coisas que nos são dadas e vai até a ideia de verdade (maiêutica socrática), através de um exercício intelectual similar a um parto.
Na modernidade filosófica, salvo particularidades, este esquema foi mantido, alterando a forma como captamos as ideias para o nosso entendimento. Bacon e Descartes são os grandes protagonistas dessa modificação.
Contudo, ainda na modernidade, o filósofo alemão Immanuel Kant faz uma síntese na forma como os filósofos, até então, compreendiam a forma como obtemos o conhecimento e elabora a primeira noção de crítica.
Baseado nas noções puras de espaço e de tempo, a teoria do conhecimento kantiana esboça uma verdade transcendental, cabendo à experiência confirma-la ou não. Grosso modo, a verdade independe da experiência, sendo estática e universal. Já a realidade é fruto da experiência individual, passível de comparação com a verdade transcendental, tornando-se verdadeira a medida em que se equipara à sua noção pura. (Ex.: só sabemos que uma cadeira é uma cadeira porque temos a ideia de cadeira em nossas mentes)
É com base nesse arcabouço que surge a ideia kantiana de crítica. Sua tarefa primordial é averiguar os limites racionais do próprio conhecimento, como também comparar a realidade com a ideia pura do fato observado. Deste modo, a realidade concreta é confrontada com a sua ideia transcendental, cabendo à crítica fazer esta comparação. De igual modo, a crítica kantiana é idealista porque tem como ponto de partida uma verdade transcendental, afastada da realidade objetiva.
Esse caráter idealista da crítica foi convertido na filosofia elaborada por Karl Marx e Friedrich Engels. Herdeiros da dialética hegeliana e que é expressada com base no termo alemão aufhebung (que significa destruir, conservar e elevar), a crítica marxista tem um caráter revolucionário. Isso significa que cabe à crítica não apenas analisar e compreender o mundo, mas também a tarefa de transformar a sociedade, modificando a sua estrutura da forma mais radical possível. Para tanto, negar a realidade existente não basta, é preciso pensar, imaginar, propor soluções que possam derrotar o modelo social vigente – a sociedade capitalista – para que outra possa emergir – a sociedade socialista/comunista.
A terceira e última noção de crítica aparece na denominada Teoria Crítica. Adorno, Horkheimer, Walter Benjamin e Marcuse são alguns dos seus expoentes. Inspirada na noção marxista de crítica, os denominados frankfurtianos elaboraram uma concepção de crítica que é alicerçada na compreensão e negação do status quo – denominado por Adorno e Horkheimer de Teoria tradicional – e a proposição de uma teoria – baseada na ideia de como deveria ser a realidade – que possa contribuir para a emancipação humana.
A Teoria Crítica alia teoria e prática, e considera o contexto histórico onde os agentes críticos estão situados. Cabe, portanto, enxergar no mundo real as suas potencialidades melhores, de compreender o que é, tendo em vista o melhor que ele traz embutido em si para, em seguida, transformá-lo.
Nota-se que, das três assertivas filosóficas sobre o conceito de crítica, a kantiana possui um caráter idealista e, digamos, conservador. Já as outras duas (marxista e Teoria Crítica) pressupõe uma postura transformadora da realidade.
Enfim, certamente vivo em uma sociedade crítica, mas qual é o sentido que é dado, por cada indivíduo, a ela?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s