Uma frase da presidenta Dilma Roussef (PT), em entrevista concedida ao Bom Dia Brasil, tem gerado certo desconforto.

Confira o que diz o site do jornal O Globo: http://oglobo.globo.com/brasil/reforma-de-curriculo-proposta-por-dilma-gera-polemica-nas-redes-sociais-14011499

As redes sociais estão repercutindo, negativamente, um trecho em que a presidenta fala o seguinte: “Minha querida, você não vai fazer três perguntas para mim, deixa eu acabar de responder, pelo amor de Deus, porque o debate é comigo, não é? Então, vamos embora. Olha lá, os dois anos, os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio, de fato, não estão bons. Nós não conseguimos entrar na meta. Nos últimos anos do ensino fundamental, nos aproximamos. No ensino médio, não nos aproximamos. Nós temos esse diagnóstico do ensino médio. Tanto é assim que criamos o Pronatec. O Pronatec tem duas partes, uma parte é ensino técnico. Por que criar um ensino técnico? Porque o jovem do ensino médio, ele não pode ficar com 12 matérias, incluindo nas 12 matérias, filosofia e sociologia. Não tenho nada contra filosofia e sociologia, mas um currículo com 12 matérias não atrai um jovem. Então, nós temos que primeiro ter uma reforma nos currículos e isso não é algo trivial. O governo não faz isso por decreto, porque tem todos entes federados envolvidos.” [Grifo meu]

Confira toda a entrevista: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2014/09/bom-dia-brasil-entrevista-dilma-rousseff.html

A jornalista Ana Paula Araújo perguntou para Dilma sobre a proposta de acabar com o analfabetismo e que, após 12 anos de governos petistas, ainda existem 13 milhões de analfabetos no país.

De forma descontextualizada parece-nos que a presidenta e candidata à reeleição Dilma Roussef pretenderá extinguir as disciplinas Filosofia e Sociologia.

Além disso, pelo tom da resposta, percebe-se que a entrevista não se deu em um clima amistoso. Ainda mais se considerarmos que estamos a menos de 14 dias da eleição presidencial.

Todavia, independente disso, penso que algumas informações precisam ser compartilhadas para tentarmos compreender a entrevista.

Durante alguns anos, o Conselho Nacional de Educação (CNE) debateu a reformulação dos parâmetros curriculares nacionais para o ensino médio. A discussão envolveu a academia, o Congresso Nacional, o MEC, as entidades educacionais, os secretários estaduais de educação e outros agentes interessados no assunto.

Após terminar este processo de debates, o CNE aprovou a resolução nº 2, de 30 de janeiro de 2012. Nela está condita as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio.

Grosso modo, a nova diretriz engloba as disciplinas em quatro grandes áreas do conhecimento:

I – Linguagens:

  1. a) Língua Portuguesa;
  2. b) Língua Materna, para populações indígenas;
  3. c) Língua Estrangeira moderna;
  4. d) Arte, em suas diferentes linguagens: cênicas, plásticas e, obrigatoriamente, a musical;
  5. e) Educação Física.

II – Matemática.

III – Ciências da Natureza:

  1. a) Biologia;
  2. b) Física;
  3. c) Química.

IV – Ciências Humanas:

  1. a) História;
  2. b) Geografia;
  3. c) Filosofia;
  4. d) Sociologia

 

Por força da lei, há dois conteúdos a serem ministrados no ensino médio: A língua espanhola e disciplinas com tratamento transversal.

Confira a resolução citada na página eletrônica do MEC: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=17417&Itemid=866

Obviamente, a primeira impressão que posso ter é de preocupação, embora a própria candidata reconheça que mudar o currículo do ensino médio não é uma tarefa trivial.

Por outro lado, desconfio que a força política, no caso o PT, que incluiu a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias no ensino médio, tenha mudado de ideia.

No entanto, observo que há um esforço do MEC, desde a gestão de Aloisio Mercadante, de aproximar o currículo do ensino médio à prova do ENEM. Assim, os conteúdos de cada área do conhecimento precisarão ser organizados de forma integrada. Parece-me que a nova resolução do CNE caminha nesta direção.

Confira o que disse o ex-Ministro Aloisio Mercadante: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2012-08-14/mercadante-defende-revisao-curricular-no-ensino-medio.html

O fato é que, de acordo com o último censo educacional, pouco mais de 50% dos jovens, com idade entre 15 e 17 anos estão matriculados no ensino médio. É algo em torno de 8,312 milhões de jovens.

O atual PNE estabelece que, em 2022, 85% dos jovens estejam matriculados. É um desafio ambicioso, que requer mais investimentos e uma correta gestão por parte das secretarias estaduais de educação.

Que o ensino médio brasileiro vive uma crise de identidade, sem saber ao certo qual é o seu objetivo verdadeiro, não há dúvidas. O dilema entre preparar para o vestibular ou para o mundo do trabalho continua. Estudantes, pais, governantes, empresários, docentes, demais segmentos da sociedade, cada um tem uma resposta pronta, viabilizando um cenário de conflitos e de interesses diversos.

Para mim, a formação para a emancipação continua sendo o real objetivo do ensino médio.

Confira outra postagem minha a respeito: https://refletindocomchristian.wordpress.com/2014/03/28/educacao-e-uma-questao-de-conteudo/

Enfim, qualquer reforma que caminhe para a direção emancipatória será bem-vinda.

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