No ato de posse, a presidenta Dilma Roussef anunciou o slogan do seu segundo mandato: Brasil, pátria educadora. Os argumentos utilizados pela mandatária brasileira para tal escolha foram dois: 1) Que o segundo mandato dela irá concentrar esforços na melhoria da qualidade da educação brasileira, especialmente na educação básica; 2) Que a classe política deve servir como guia no combate contra a corrupção.

Imediatamente lembrei de uma palestra que realizei na metade da década passada. Tendo Aristóteles como fundamento teórico, tentei demonstrar como o estagirita construiu uma proposta de sociedade que alia educação, ética e política.

Aristóteles define a ética como uma ciência prática, algo que tem como objetivo o bem entre os homens que vivem na pólis. A ética constitui uma forma da política.

Em sociedade, o indivíduo deve buscar a própria felicidade, mas também a de todos. Por felicidade, Aristóteles compreender ser um bem perfeito, autossuficiente, que torna a vida desejável e não carece de nenhum outro bem, ou seja, a felicidade é uma excelência, a felicidade é uma areté.

O bem ético é uma obra de toda a vida, um exercício diário que a alma realiza constantemente.

Porém, para conquistar a felicidade o homem tem que agir com base em ações virtuosas. Aristóteles entende a virtude como a capacidade de estabelecer o meio termo existente entre dois extremos. É o conceito aristotélico da justa medida. Só que a virtude é um hábito adquirido, por isso que a educação torna-se fundamental para o projeto ético-político do filósofo grego.

De igual modo, a ética é a ciência da moderação, da prudência (phrónesis). Agir de forma prudente em sociedade é outro pré-requisito que Aristóteles considera fundamental.

Feito esta introdução conceitual, a relação da ética aristotélica com seu projeto político fica nítida, ainda mais porque há uma afinidade entre os conceitos de prudência com o de justiça – entendida como a virtude moral ligada diretamente às leis da pólis.

No início de A Política percebe-se imediatamente o objetivo central das ações do homem na pólis: “Todo o Estado é uma sociedade, a esperança de um bem, seu princípio […], pois todas as ações dos homens têm por fim aquilo que consideram um bem.” (ARISTÓTELES, 2001, p.01)

Aristóteles afirma que é natural ao homem viver bem em uma pólis e por isso ele advoga que o homem naturalmente vive em sociedade, nunca isoladamente, tornando-se em um animal cívico.

Para conviver em uma sociedade, a palavra ganha uma importante relevância. Primeiramente porque o dom da palavra pertence apenas aos homens. A outra refere-se ao uso da palavra na ágora, recinto em que é deliberada as leis que regulam a vida em sociedade. É na ágora que a palavra se manifesta na sua forma mais perfeita.

Outro aspecto abordado é que o bem individual está subordinado ao bem coletivo. Desta forma, a vida ética só se realiza na cidade. Somente na pólis justa, os cidadãos podem ser bons e justos.

É neste contexto que a reflexão educativa de Aristóteles é concebida.

Inicialmente ele defende que a virtude faz com que o cidadão seja bom.

Em seguida, Aristóteles identifica que o local mais apropriado para se educar a criança é na escola, por compreender que lá é o único local onde se pode universalizar as virtudes.

Todavia, relata que um legislador deve transmitir, ao espírito do povo, que o bem individual é também o bem para a pólis. Assim, ele estabelece uma crítica aos legisladores das demais cidades. Para estes, a educação deve auxiliar na formação de exércitos grandiosos.

Outra recomendação do filósofo grego é a de que os valores ensinados para a criança devem auxiliar ao bom funcionamento da pólis, já que a vida pública e privada tem o mesmo fim. Portanto, a escola deve imprimir nas crianças essa compreensão desde cedo.

Quando o assunto é o trabalho, Aristóteles diz que ele deve existir para que os homens possam depois ficar em repouso, cultivar o lazer, pois dessa maneira eles precisarão mais da filosofia, da moderação e da justiça. Assim, a educação para o trabalho não deve ter como meta o trabalho em si, mas o engrandecimento humano.

Delineadas as finalidades e a ordem de como educar uma criança, os conteúdos educativos, as etapas da educação e papel da pólis e as suas implicações para a educação dos infantes são os próximos elementos que serão destacados.

Numa primeira fase da formação educacional, deve-se preocupar com a saúde da criança. Cuidar da alimentação, dos movimentos, habitua-la a preservar a saúde são os cuidados iniciais a serem tomados.

Até os cinco anos não é conveniente ensinar nada para as crianças, mas sim, deixá-la brincar, se preocupando exclusivamente com o movimento do corpo. Deve-se ainda atentar à formação do caráter honesto na criança.

Aristóteles é adepto da formação de bons costumes na formação educacional das crianças, pois considera que são as primeiras impressões que mais afetam a vida de uma pessoa. Para que isso ocorra ele propõe proibir a criança de participar de conversas indecentes, de ver pinturas e peças teatrais, até elas atingirem a idade adulta.

Essa primeira fase educacional conclui-se aos sete anos. Até esta idade a formação deve ser ministrada no próprio lar.

Já na segunda fase educacional, deve-se procurar um professor para cuidar da formação educacional das crianças. São os paedonomos.

A partir dos sete anos, a educação se divide em duas partes: até a puberdade e a outra fase vai da adolescência até os vinte e um anos. Nesta faixa etária, “a obra da educação, assim como todas as artes, deve unicamente completar o que falta ao ser das obras da natureza.” (ARISTÓTELES, 2001, p.77)

De igual modo, a educação começa a ter um caráter mais ligado a preocupação de formar cidadãos virtuosos e justos, visando a constituição da pólis e busque a felicidade para todos. Por isso que a cidade grega não pode negligenciar a formação das crianças.

Outro aspecto é que, para Aristóteles, a virtude pode e deve ser ensinada. Para que isso ocorra, deve-se ensiná-la e praticá-la nas escolas. Porém, ele pondera que não são todos que estão de acordo sobre o significado da virtude.

Até a puberdade a prática de exercícios leves é recomendada.

Outro aspecto considerado na reflexão educativa de Aristóteles diz respeito ao ensino das artes. Se no primeiro instante Aristóteles defende o afastamento das crianças da música e da pintura, nessa segunda fase educacional, ele diz que a música e a pintura servem para tornar o lazer mais agradável.

A escrita e a leitura são elementos fundamentais que precisam ser ensinados, já que ele considera que estes conteúdos educativos são fundamentais para a compreensão de outras ciências.

Feito estas explicações, Aristóteles dedica uma breve atenção aos exercícios físicos. Contudo, o professor não deve atormentar, ao mesmo tempo, o espírito e o corpo da criança.

Aristóteles estabelece uma relação entre a virtude e a educação. Ele compreende que: “O mais importante meio para a conservação dos Estados, mas também o mais negligenciado é fazer combinar a educação dos cidadãos e a Constituição.” (ARISTÓTELES, 2001, p.242). Como se vê, a educação tem uma conotação política e ética para Aristóteles.

A última etapa educativa começa com 21 anos. Deve-se ministrar o que Aristóteles identifica como educação prática para a cidadania. Ela é caracterizada por dois tipos de atividades: 1) A prática ou executiva; 2) A teórica ou legislativa e judiciária. É assim que ele conclui essa relação entre educação e poder político: “Ora, educar os súditos em consonância com o Estado não é adular os grandes ou o povo […] mas acostumar os cidadãos a manter sua oligarquia ou sua democracia.” (ARISTÓTELES, 2001, p.243).

Como se vê, para Aristóteles, o convívio dos cidadãos na pólis grega serve para a formação educacional de seus membros. Assim, a práxis torna-se um princípio educativo, na qual ética, política e educação unem-se na mesma direção.

Por isso que Aristóteles designa que os governantes devem ser os melhores pela sua excelência e que terão como tarefa constituir instituições políticas que visem à justiça, através de leis, a pólis grega habituará seus membros a agirem da melhor forma possível. É a lei positiva moldando a conduta de seus cidadãos e o exemplo do governante refletindo na ação dos governados.

Com Aristóteles, a educação é uma atribuição da pólis, fazendo parte da política. Assim, desde cedo, as crianças devem ser educadas para que se tornem cidadãos capazes de tomar decisões de forma racional, pois é uso da razão que reside a capacidade de o cidadão reger sua conduta na pólis.

Enfim, não tenho evidências que demonstrem alguma inspiração aristotélica no slogan do mandato da presidenta Dilma Roussef. Mesmo discordando com o fato de Aristóteles pressupor a existência de uma sociedade harmônica, na qual todos agem pensando no bem comum, a reflexão do estagirita é válida a medida em que ele une política, ética e educação como fundamento para qualquer sociedade. Agora é esperar para ver.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. A Política. Martins Fontes: São Paulo, 2001.

CHAUÍ, M. Introdução à História da Filosofia: dos Pré-socráticos a Aristóteles. Brasiliense: São Paulo, 2004.

MONROE, P. História da Educação. Trad. Idel Becker. 10.ed. Nacional: São Paulo, 1974.

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Um comentário em “Aristóteles e a pátria educadora

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